Os impactos da pandemia de SARS-Cov-2 no ofidismo

  • Você sabe como a pandemia afetou os acidentes ofídicos?

 

  • O ofidismo, em geral, atinge principalmente populações pobres, de difícil acesso e de baixas condições de moradia e higiene. Diante disso, o atendimento à  vítima de envenenamento por mordida de serpentes pode usualmente demorar e, assim, trazer graves complicações.

  • Dito isso, o acidente ofídico é um agravo negligenciado em vários aspectos. Foi somente em 2017 que a Organização Mundial de Saúde (OMS) reclassificou como uma doença negligenciada prioritária. E, em 2019, lançou a meta de reduzir a mortalidade e invalidez das vítimas em 50% até 2030.

  • Apesar disso, é indiscutível afirmar que os sistemas de saúde, em muitos países endêmicos para acidentes serpentes, ainda não estão equipados para responder adequadamente. A falta de experiência, de equipamentos médicos, especificamente, da quantidade adequada de soros antiveneno, são problemas comuns nas unidades de saúde.
  • Além disso, há o fato que as pessoas mais afetadas por esse tipo de envenenamento são compostas por trabalhadores rurais, agricultores, indígenas, pescadores, seringueiros, extrativistas, isto é, indivíduos com limitado acesso a cuidados em saúde.
  • Nesse contexto, no início de 2020, eclodiu uma nova pandemia, COVID-19, obscura e alarmante, que agravou esse cenário de exclusão social, em que muitos indivíduos em condições precárias de moradia, sem saneamento básico, morando em regiões superpovoadas, de difícil acesso, como as favelas, por exemplo, não tiveram como se proteger da infecção do novo vírus.
  • O Brasil, com um sistema de saúde pública já sobrecarregado, teve situações de escassez de medicamentos, de EPIs, de profissionais de saúde, de leitos e equipamentos médicos.

 

  • O artigoSnakebite incidents, prevention and care during COVID-19: Global key-informant experiences, relata sobre um provável acontecimento que agravará a situação do ofidismo mundial. Segundo os autores, “afetará negativamente desde o número de eventos até o comportamento de busca de saúde, tratamento e resultados de saúde”.
  • Para essa premissa, foram coletado dados de locais endêmicos, sendo 94 indivíduos entrevistados e desses 43 foram selecionados.
  • Foram relatados as seguintes problemáticas:

 

  • a) No contexto pandemia:
  • O sistema de notificação e informações dos países relatados no estudo piorou durante a pandemia, portanto, os números seriam comprometidos e até existirá uma piora de um quadro de já subnotificação.
  • Houve diminuição de contato com as comunidades afastadas.
  • Com o fechamento de escolas, as crianças e jovens, sobretudo do interior, passam mais tempo expostas ao ar livre, dessa maneira, em maior contato com o habitat das serpentes, tendo maior exposição a potenciais perigos.
  • Houve notória fuga para regiões rurais em algumas regiões, na tentativa de fugir da infecção por SARS-Cov-2, de forma a ficar mais próximos de regiões florestais.

 

  • b) No contexto hospitalar:
  • Houve redução no número total de admissões hospitalares por mordidas de cobra em alguns hospitais, pelo receio de contaminação pelo vírus.
  • Outro problema foi o atraso no tratamento do acidente ofídico pelo rastreamento do coronavírus. Muitas vezes, preocupou-se mais com a triagem de detecção do vírus que com a gravidade da situação do paciente.
  • Um exemplo disso foi o relato, no estudo, de um caso em que um homem de 60 anos, vítima de ofidismo, teve que esperar por uma reação em cadeia da polimerase (PCR) para COVID-19, teste feito no momento da admissão em muitos hospitais, mesmo necessitando de tratamento de emergência. Ele veio a falecer enquanto aguardava o resultado.
  • Alguns locais, pela alta taxa de internação pela COVID-19, os leitos eram escassos.
  • Houve também a falta do antiveneno, agravada no contexto atual. Essa situação ocorreu, principalmente, na  África do Sul, e nas Filipinas, onde a produção de antiveneno, que já não atendia à demanda local, diminuiu ainda mais devido a uma transferência de fundos para COVID-19.

 

  • Porém, não se vê somente impactos negativos:

 

  • Sabe-se que nos casos graves de infecção por SARS-Cov-2, há dano nos alvéolos pulmonares, que se dilatam e ficam porosos, o que prejudica a troca de gases. Dessa forma, a respiração se torna uma tarefa trabalhosa e árdua ao paciente.
  • Com ajuda dos respiradores mecânicos, os quais entregam ar rico em oxigênio diretamente nos pulmões, os esforços musculares pelo paciente são diminuídos. Essa máquina era de difícil reserva e muitos centros de saúde tinham escassas quantias. Dessa maneira, no futuro, haverá maior disponibilidade desse equipamento, beneficiando, também, as vítimas de ofidismo.

 

Fonte: OIRSCHOT, J. et al. Snakebite incidents, prevention and care during COVID-19: Global key-informant experiences. Toxicon X. Volumes 9–10, July 2021, 100075

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